Depoimentos

Quase 10 anos passaram e resgatamos esses depoimentos gravados em vídeo, agora transcritos aqui no site Elas+

No dia 20 de outubro de 2016, acompanhada pelo videomaker, Henrique Dídimo, conversei com algumas internas, privadas de liberdade, na unidade prisional Irmã Imelda Lima Pontes, em Itaitinga-CE, a fim de conhecer um pouco a história de cada pessoa que estava ali privada de liberdade. 

Conforme prometido às pessoas fotografadas, retornei à unidade prisional naquele dia para entregar as fotos que eu havia feito no dia 13 de outubro do mesmo ano. As reações diante das fotos foram as mais diversas possíveis e por ter sido o segundo momento em que eu estava com elas, percebi que existia ali uma certa abertura, elas passaram a me olhar com mais confiança e sentiram-se à vontade para contar o motivo de estarem ali, o que planejavam após a liberdade, como se viam, como se sentiam, a dificuldade ao lidar com o preconceito e o apoio não encontrado na família.

Quase 10 anos passaram e resgatamos esses depoimentos gravados em vídeo, agora transcritos aqui no site Elas+

Nathália

“Gosto dessa foto. Ela é simples, não parece uma cadeia, parece um quarto. Muitas pessoas têm uma visão diferente do sistema penitenciário, pensam que é tudo sujo, encardido, quando na verdade não é, pode ser diferente: limpo, organizado, personalizado. Dentro da cadeia pode encontrar também criatividade e simplicidade, não só crueldade, como é mostrado na mídia, a cadeia pode ser também um universo simples. Pela foto, você vê que é uma cadeia calma, pacífica. Nós, o público GBT1, somos muito discriminados em outras cadeias, e tendo uma ala2 só pra nós é muito bom porque a gente tem mais assistência, a visão é diferente, a gente não sofre tanta homofobia ou transfobia como sofre em outras cadeias. A nossa família também não sofre. A divulgação dessas fotos é um ponto positivo pra nós”.
Nathália

1 GBT: a sigla, em 2016, fazia referência aos gays, bissexuais e travestis da Unidade Prisional Irmã Imelda Lima Pontes, localizada em Itaitinga-CE, com capacidade para 200 pessoas internas. A unidade foi construída para receber internos ditos vulneráveis no sistema penitenciário, como idosos, gays, bissexuais e transexuais.

2 Ala: subdivisão física dentro da unidade prisional, destinada a separar os/as internos/as por diferentes motivos, como grupos LGBTQIAPN+.

Rafaela

“Eu nunca pensei que eu ia passar por isso, não... porque eu passei nesses quatro anos... isso que está acontecendo comigo no final da minha cadeia: sossego. A cadeia que eu passei, tudo foi sofrimento pra mim. Cadeia é sofrimento, nunca diga que cadeia é coisa boa, não, porque é sofrimento. Não quero mais voltar pra cá, não. Deus me livre! Meu final de cadeia está sendo bom porque eu estou numa rua1 onde só tem travestis como eu, onde não tá tendo muita homofobia, transfobia, porque nas cadeias onde eu tava, eu via muitas coisas ruins, muita crueldade, e aqui eu não vejo. Às vezes até me alivia mais, não pensar tanto na minha cadeia, sei que eu estou perto de ir embora, fico com ansiedade, eu ficava desesperada querendo ir embora, saber o porquê que ainda não fui, e essas coisas que acontecem: esse curso de cabelo, essas fotos, a filmagem, a gente vai esquecendo um pouco lá fora e vai se adaptando mais ao sistema. O fanzine foi uma coisa que ajudou bastante a gente, tá entendendo? Porque a gente podia expressar o sentimento da gente. A gente escrevia, ou até mesmo fazer uma colagem, era uma coisa tipo artesanal, mas que a gente expressava nossos sentimentos para as pessoas lá de fora, pessoal da universidade, tinha gente que gostava muito da gente, mandava maquiagens, lingeries, as meninas davam muitas alegrias pra gente, então a gente mantinha um contato através do fanzine, tá entendendo? Eu gostei mais dessa foto aqui, né, que representa uma borboleta. Como tá perto do meu alvará2, o que aconteceu nessa cadeia que foi uma grande coisa pra mim, que eu achava que nunca ia acontecer, aí eu bati essa foto aqui, quando eu vi me identifiquei mais com ela, que é a liberdade, que é uma borboleta. Eu achei linda essa foto aqui, vou levar pra mim. Destacou essa borboleta, eu achei linda, destacou mais ela do que eu. Assim que eu cheguei, eu desenhei, tinha umas tintas guaches, aí eu decorei a cela. Borboleta é liberdade pra mim. A minha cara é borboleta, eu adoro borboleta. Borboleta e coração é comigo mesmo. Se fosse em outras cadeias, o que eu já passei, era pra mim estar já depressiva... Me tornei uma pessoa forte por estar nessa cadeia, não só por estar aqui, mas também pelas amizades, porque uma rua onde tem as travestis você fica mais forte, tá entendendo? Tem a dificuldade, tem as intrigas, tem as confusões, mas sempre quando eu preciso elas me ajudam, porque eu sou uma pessoa que a minha mãe não me visita, ela se mudou, então eu não tenho contato com ela. Então fiz muitas grandes amizades. Quando eu sair no meio da rua, eu vou ficar assustada, mas eu tô botando foco na minha cabeça que eu quero trabalhar com salão, que era o que eu sempre trabalhava, ajudava uma amiga minha. Como eu saí da casa da minha mãe, eu entrei no crime, no tráfico de droga, então não rendeu pra mim, acabei aqui, eu quero voltar pro salão, certo que você não ganha muito, não ganha um dinheiro bom, mas você ganha um dinheiro honestamente, né? E eu vou trabalhar no salão da minha amiga, que ela tem um salão na Caucaia, a mãe dela dá maior ponto a mim, gosta da minha pessoa, é um recomeço pra mim, tá entendendo? E longe de drogas, que eu não quero amizade com ninguém que use droga, que pra mim não tem futuro. Eu quero viver minha vida tranquila. Dessa cadeia aqui eu vou ter momentos bons, mas vou ficar com relembranças das outras que já passei, tá entendendo? Das coisas ruins que eu já vi, dos preconceitos que eu já tive. Eu acho que tá diminuindo o preconceito, a transfobia, porque de primeiro quando eu cheguei, uma cadeia pra travesti, uma rua, não tinha, você não poder ter o cabelo grande e ter que cortar o seu cabelo, não entrar hormônio, não tinha. Roupas femininas, não tinha. Se em uma cadeia tá tendo isso, eu acho que lá fora vai sempre ter um preconceito, uma transfobia, sempre vai gerar preconceito, mas o que vale é o respeito e a dignidade da gente, o que mais vale numa travesti, numa transexual é ela ter o respeito, a dignidade. Meu padrasto é evangélico, é homofóbico. No momento que eu comecei a me vestir de mulher, eu tinha uma vida normal, estudava de noite, trabalhava num salão, saía seis horas da noite, ele não aceitava eu entrar dentro de casa, jogava minhas roupas na rua, como era ele que pagava o aluguel não tinha como eu debater com ele, então minha mãe preferiu que ele ficasse e eu saísse, aí foi que eu entrei no mundo das drogas. Muitas vezes o que atrapalha na vida é as drogas e a bebida, e ele auxiliava muito a minha mãe a beber, e ela tinha problema de pressão alta, varizes nas pernas, então já ficava sempre debatendo com ele pra ele não deixar ela beber, pra não ver isso eu saí de casa, passei dois meses na rua, aí foi que eu conheci as amizades, aí eu comecei a traficar, foi aí que eu caí na cadeia. É o que eu acho assim que acontece com a maioria das travestis, que a travesti quer levar uma vida social, uma vida normal, mas dependendo das ocasiões que acontece com a família da gente, que faz a gente se levar pro mundo do crime. Porque sem o apoio da família, a pessoa fica desestruturada. Eu acho que até hoje a minha mãe não veio me visitar, não veio atrás de mim por conta dele porque ela é uma pessoa assim... ela é muito do sertão, ela já tem medo de ir no presídio, em delegacias, e sem o apoio da família fica mais difícil. Porque pra chegar a um ponto desse sempre existe um tipo de frustração pra você passar a sair de casa, entendeu? Se existe um fator muito forte que a gente não aguenta, então quando acontece isso a primeira coisa a fazer é coisa errada, que acha que aquilo vai mudar ou que pelo menos vai fazer a gente esquecer. Meu irmão até hoje não aceita, né? Eu fiquei meio intimidada porque me disseram que teve um sábado que ele poderia vir... A gente passou cinco anos sem se falar por causa do preconceito, pelo fato de eu ser uma travesti. Ele não aceita, de jeito nenhum, eu colocar roupa de mulher. Ele é evangélico, mas a gente... tamo tentando ter amizade, se falar, recuperar o tempo que a gente perdeu, entendeu?”

Rua: é um setor específico dentro de uma cadeia, possui sua própria dinâmica e regra.

Alvará: ordem judicial que determina a liberdade de uma pessoa que se encontra presa; quando cumprida ou extinta a pena, será posta, imediatamente, em liberdade (Fonte: artigo 685 do Código de Processo Penal).

Romário

“Ficamos surpresas com o que aconteceu hoje. As fotos vieram pra nós, mas em nenhum momento achava que ia ter uma exposição aqui. Muitas pessoas vão me ver. O preconceito tem que acabar, né? Às vezes nós mesmos temos preconceito com nós mesmos. Isso é uma realidade que pode ser transformada”.