Eu sou Graciane Paula Oliveira da Silva, eu sou ativista LGBT, fundadora do movimento LGBT carcerário. Estudante de Direito, e serei sempre uma mera estudante de Direito, porque gosto de estudar Direito. Tenho 30 anos. São 10 anos de história, 10 anos de movimento LGBT, 10 anos de sistema carcerário. São 10 anos de aprendizados, de muita luta, de muita garra.
A Paulinha de 10 anos atrás era uma Paulinha mais destemida, menos criteriosa com as coisas, imatura, era uma jovem, que tinha ali seus vinte e poucos anos, hoje sou uma mulher de 30 anos. Essa Paula hoje é uma Paula mais tranquila, mais verdadeira, mais ciente das lutas e do seu corpo, e do que a gente representa para a sociedade.
Quando era jovem, eu gostaria de ser veterinária. Quando completei 17 anos, fiz ensino médio, terminei. Mas convivendo dentro do sistema prisional, eu consegui me reencontrar, reencontrar uma profissão onde eu pudesse ajudar as pessoas, que muitas vezes estão ali sem ter cometido crime algum. Às vezes estão ali por maldade humana, por maldade da própria família. Então eu me vi dentro dos direitos humanos, e o Direito, ele é um mundo de mãos dadas dentro dessa percepção de legislações por direitos para a nossa população. Foi nessa visão que o Direito entrou na minha vida, através do sistema prisional.
A Paula, dez anos depois, se enxerga uma mulher de 30 anos, formada, advogada, que trabalha por lutas, por conquistas, pretende conquistar o mundo. Essa é a Paula que eu planejo pra mim. Eu planejo uma Paula advogada, eu planejo uma Paula de plenitude, eu planejo uma Paula cheia de vida, cheia de coragem, cheia de necessidade de viver.
O Projeto Elas é um projeto muito importante, porque mostra a vivência das populações trans e travestis dentro do sistema carcerário. De contrapartida, é importantíssimo mostrar as realidades ali vividas e as realidades aqui fora. A gente traz dentro do Projeto Elas essas duas visões, a visão de lá dentro e a visão daqui de fora. Onde tá essa população? Onde vive essa população? Qual é a visão depois com essa população? É muito importante esse Projeto, porque é uma visão de dois mundos. Um mundo onde faltava essa liberdade e um mundo que tem tanta liberdade. Cadê essa população? O que se falar dessa população? Quais são as oportunidades que essa população recebeu? O Projeto traz muito essa vivência. A minha participação, ela é importantíssima, porque traz duas visões. A visão de lá de dentro, há dez anos atrás, e a visão daqui de fora, dez anos depois.
Mostrar para essas meninas que a gente pode, sim. A gente pode ser veterinária, advogada, médica, nada impede para que a gente possa ocupar os nossos espaços. Os espaços de poderes, os espaços de responsabilidade. A gente também pode cuidar e ser cuidada. Então, assim, há a importância do projeto para que essas meninas também possam se reencontrar dentro do Elas. Para que essas meninas que um dia já passaram por lá possam ter acesso e dizer, olha, se ela deu certo, eu também consigo dar. E outras meninas que nem sequer passaram por lá, mas que vão ter a experiência de acessar o site do Projeto e ver que existia essa população. Essa população, ela sempre foi existente, mas onde está essa população? Então é a importância do Projeto para mostrar que sim, que é capaz de passar pelo sistema carcerário e voltar a viver com dignidade e respeito.










